Inteligência Espiritual e Experiência Espiritual

Por Marcia Poppe, em 27/07/21.

Falando sobre Inteligência Espiritual de um modo mais amplo e abrangente, diversos autores, teóricos e filósofos já escreveram e falaram sobre essa que é uma entre muitas linhas de inteligência. Aqui mesmo no Blog da Choice, você encontra outros textos meus, escritos nos últimos anos. Hoje trago mais uma perspectiva, inspirada pelo vídeo “Quick Hit: Wake Up Grow Up – Spiritual Intelligence vs Spiritual Experience”, de Ken Wilber, disponível aqui no texto e também no Canal da Choice no YouTube, na Playlist “Inteligência Espiritual & Espiritualidade | Por diversas lentes e aproximações”. As palavras aqui são parte transcrição, parte minha própria narrativa e parte, citações.

É preciso diferenciar a Inteligência Espiritual das demais linhas de inteligência, é preciso diferenciá-la de religião e espiritualidade e é preciso acima de tudo, enxergá-la como um tipo específico de engajamento espiritual, diferente da Experiência Espiritual. Estes dois tipos de engajamento com questões do espírito nos são trazidos neste curto e elucidativo vídeo, de aproximadamente 8 minutos.

Ken Wilber aponta que isso não é tão óbvio de início, e que a incapacidade de apreender essas distinções se torna literalmente catastrófica, afetando tudo desde a educação até a política, ao aquecimento global, e ao terrorismo mundial.

Nas palavras dele, a Inteligência Espiritual é uma entre uma dezena de linhas diferentes de inteligência e se trata de uma aproximação intelectual às questões do Espírito, uma Realidade Última. É como nós pensamos a respeito dessa realidade, seus conceitos e símbolos que utilizamos para representá-la, as idéias que formamos sobre ela, é nossa visão de mundo quando se trata de realidades religiosas e espirituais. “When it comes to Spirit, it is our talk“, como ele diz.

Já o outro tipo de engajamento, de consciência espiritual, trata da experiência espiritual direta. Bastante diferente da Inteligência Espiritual. Saber sobre algo não significa viver esse algo, experienciar esse algo. É preciso ter noção disso, é preciso ter essa consciência, se você deseja efetivamente viver a espiritualidade e a mística de forma direta. Desenvolver sua inteligência espiritual pode levar você a viver experiências espirituais, entretanto, isso não é garantido.

Inclusive a sua interpretação da experiência vivida vai depender do seu nível de desenvolvimento de consciência, do estágio de maturidade em que você se encontra na sua jornada de evolução. Não é à toa que sou fascinada por esses temas na área de desenvolvimento humano adulto. Para mim, foi necessário mergulhar profundamente em determinadas práticas espirituais para que pudesse atravessar um período ao mesmo tempo de uma riqueza espiritual enorme e extremamente adverso e doloroso em minha vida, há mais de 10 anos atrás, quando quase que simultaneamente tive experiências místicas profundas e perdi alguém que amei muito, de modo bem trágico.

Voltando ao filósofo Ken Wilber, o segundo tipo de engajamento espiritual não é a consciência sobre ele, ou o conteúdo da consciência dele, mas sim, é a experiência direta, é a consciência espiritual ela mesma, é a sua vivência dela, é a própria experiência, a experiência em si. “This is not our talk, but our walk“, diz Wilber.

Enquanto a inteligência espiritual nos diz que somos um com o Todo, a experiência espiritual nos permite direta e completamente viver, ser essa Unidade com o Todo. No modelo SQ21, essa é uma das 21 habilidades, a “Experiência da Unidade Transcendente”. “We do not think it, we are it.”, como afirma Ken Wilber, no video.

Alguém pode ter uma teoria muito bem elaborada ou um mapa, uma compreensão intelectual abrangente do entrelaçamento do universo e trazer todos os tipos de descobertas científicas desde a física moderna até a ecologia, e ainda assim, experienciar a si mesmo como um ego encapsulado, que existe de um lado e que olha para o mundo como algo separado lá do outro lado do seu ser. Outros podem pensar que sujeito e objeto são um, unificados, entrelaçados, um sistema não-dual, e da mesma forma, experienciarem a si mesmos como sujeitos isolados dos objetos do mundo. Em ambos os casos, o nível de desenvolvimento da inteligência espiritual é alto, enquanto a experiência espiritual, não.

Da mesma forma, uma pessoa pode experimentar um despertar, experienciar uma consciência de iluminação ou realização não dual e não fazer idéia do que tenha experienciado, nem o porquê e nem como. Neste caso, a experiência espiritual é profunda, mas a inteligência espiritual tem pouco desenvolvimento e muitas vezes, a interpretação que dá ao que viveu, e as idéias que utiliza para descrever sua experiência são bastante arcaicas, desatualizadas, ou mesmo infantis e supersticiosas.

Por isso é importante se colocar em um caminho de desenvolvimento psicológico e espiritual consciente. Sua visão de mundo, sua narrativa em relação às suas experiências – e nesse caso, não só as espirituais, mas todas – sua interpretação da sua própria maneira de habitar o mundo e se relacionar se modifica, se expande. Sua presença se torna diferenciada para os outros. Com o tempo, você começa a ser alguém que inspira verdadeiramente, com seu exemplo, seu brilho, com sua alegria de viver, com suas palavras e ações, alinhadas com tudo aquilo que você verdadeiramente vive e experiência em seu dia a dia. Um caminho difícil, cheio de curvas, altos e baixos, descobertas, dor e alegria, sombra e luz. É o caminho do crescimento que se descortina após o despertar, para algumas pessoas. Para outras, é um caminho que pode levar ao despertar e, eventualmente, também à experiência direta da Unidade, seja esporadicamente (quando você acessa um estado diferente de consciência) ou permanentemente (quando você passa a habitar um estágio mais maduro de consciência e desenvolvimento).

Finalizando com uma pequena e valiosa transcrição: “And although there are various forms of this, they often involve a direct experience of the union of an individual’s self with all of existence and its divine Ground. So we have both Waking Up and Growing Up, spiritual intelligence and spiritual experience, our spiritual talk and our spiritual walk.” – Ken Wilber.