Marcia Poppe, em Março de 2026
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Paciência ~ Lenine, 1999.
Essa música do Lenine, além de linda em letra e melodia, é um convite à desaceleração consciente, a partir de um lugar de presença e sensibilidade.
Através do meu trabalho como Coach Integral, certificação que tenho há quase 5 anos, faço convites o tempo todo. Esse artigo, como não poderia deixar de ser, também é um convite. Um convite delicado, porque minha aproximação é sensível por natureza (neurobiologia, preferências, experiência de vida, consciência de mim etc.) e por formação.
Enxergo hoje, com muita clareza, que minha escolha pela escola onde cursei, que de início se manifestou como uma atração intuitiva (que fazia total sentido apenas para mim), foi uma das decisões mais coerentes que já fiz. Deixando de lado os desafios particulares, e em linguagem bem clara, “deu match”. Nesse campo, a experiência direta da metodologia contribuiu e ainda contribui para meu próprio desenvolvimento como ser humano e como profissional. Com ela, através dela e do modo como habito o mundo, convido e sou convidada à desconstrução o tempo todo.

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What you seek is seeking you ~ Rumi
Altamente sensível, sei e sinto como minha própria relação com a sensibilidade se transformou ao longo do tempo transformando também a mim mesma, em um movimento contínuo. Nem sempre no mesmo ritmo. Às vezes com resistência, outras com aceitação, acolhimento, abertura, aprendizado e grandes viradas.
Neste artigo quero explorar a sensibilidade como uma qualidade essencial, que é presente e totalmente disponível por natureza a todas as pessoas que nascem altamente sensíveis, porém também acessível, a quem por outro lado, não se identifica assim.
Em ambos os casos, por mais diferentes que sejam, o convite é o mesmo: um despertar. Como olhar para a sensibilidade de um modo diferente? Como desaprender o que sei sobre isso? Como desconstruir o que acredito sobre isso, para me abrir a uma nova perspectiva sobre esse tema? E porque, afinal de contas, esse tema, e não outro?
Porque o olhar sensível é um olhar que capta, processa, cria, enxerga soluções, padrões, contextos, de um modo mais saudável do que a realidade que nos cerca hoje permite.
O mundo está acelerado demais, e isso está causando sofrimento, esgotamento, burnout, problemas de saúde, mental, emocional, espiritual etc. A humanidade está perdendo energia e vitalidade, clientes chegam exaustos, sem encontrar uma solução, um caminho que traga alívio para as tensões presentes no dia a dia, não só no campo profissional, na vida particular também.
O mais importante, na minha perspectiva, no momento, é *d e s a c e l e r a r*.
Criar pausas. Mudar o ritmo.
Se tudo está indo muito rápido, se a sensação é de uma necessidade de correr cada vez mais, para não perder o passo, para não ficar para trás, para não ser substituída(o), sem perceber que o corpo não está mais dando conta… não é pelo fato de que tudo está assim, e que todos estão agindo assim, que você deve continuar assim. Você não é todo mundo, lembra?
A pausa permite expansão tanto em tempo quanto em espaço. Alarga a experiência e com isso, permite que percebamos as coisas, os outros, a nós, de outra forma. Dá para enxergar os detalhes, a beleza, sentir aromas, entrar no corpo.
Altamente sensíveis são necessariamente atraídos pela pausa, por questões de sobrevivência. Pausas conscientes conjugadas com esse convite de curiosidade e mudança de perspectiva podem impulsionar o movimento de um lugar de gerenciamento de estímulos externos como sobrevivência, para um lugar de encontro com seu propósito. Propósito ao invés de “dom” talvez seja uma distinção importante que quero trazer.
“Porque eu estou aqui?”, “Porque nasci assim?” ou ainda: “Para que eu vim ao mundo?”. Certamente não foi para viver em sofrimento, buscando adaptação ou isolamento o tempo todo. A saída de um lugar de dor, de vítima, para um lugar de reconhecimento e agenciamento, é sem dúvida, um belo caminho.
As you walk the way, the way appears ~ Rumi
A contribuição com o todo acontece naturalmente, sem esforço, quando tomamos para nós, conscientemente, aquilo que nos foi dado e é parte da nossa essência. E isso vale, obviamente, para todos, não só os altamente sensíveis.
Descobrir a essência é … essencial! Descobrir sim, pois ao longo da vida, vamos sendo condicionadas(os) a ser e agir a partir de estratégias que, se extremamente úteis quando as criamos na infância, se tornam completamente obsoletas na vida adulta, porém, estão tão fortemente enraizadas em nós, que não conseguimos enxergar o quão limitantes se tornam e nos prejudicam.
Essas estratégias encobrem a nossa essência. São camadas e camadas de proteção, que vamos vestindo na vida. Essas camadas vão pesando, vão ganhando rigidez, impedindo aquilo que está lá dentro e que é mais bonito, de transparecer, de tocar, de ressoar, de brilhar.
Um dos propósitos da sensibilidade é tocar o coração. O convite da pausa é justamente para isso. O mundo está sofrendo por conta de como a sociedade está funcionando, imerso em uma cultura que valoriza a velocidade, a rapidez, a produtividade a qualquer custo. Pessoas estão esgotadas e muitas não conseguem negociar, sendo levadas à pausa drástica quando o corpo não funciona mais. Independentemente se são altamente sensíveis, ou não, é necessário entrar em conversa, em negociação para esclarecer necessidades, requisitos e pontos de vista. Há um modo mais saudável de funcionar, e é necessário parar para perceber.
When will you begin that long journey into yourself? ~ Rumi
Existe imediatismo e urgência em todo lugar, e mesmo que alguns de nós percebamos isso, apenas uma pequena parcela de nós faz algo a respeito, seja em nome do próprio bem-estar ou para oferecer alívio aos outros. Muitos de nós não enxergamos que contribuímos exatamente com o senso de urgência e o imediatismo que nos rodeia e que tanto nos incomoda, quando respondemos de modo imediato um e-mail ou mensagem, quando entramos na paranoia de que “se eu não responder, outra pessoa vai responder antes de mim e eu vou ficar para trás”. Meu convite de pausa é também para que seja possível você perceber isso.
É preciso reconhecer a existência da narrativa do cuidado, que muitas empresas, instituições e pessoas têm em direção ao planeta; da inclusão, da diversidade, da empatia. O que é isso, senão o despertar da sensibilidade? De um self que acessa sentimentos, que se preocupa com o mais vulnerável, com as diferenças, com os marginalizados? Essa sensibilidade precisa de ambiente para emergir. E para isso, a pausa se faz urgente.
A pausa traz oportunidades de percepção que ampliam a perspectiva, criam espaço para que se perceba o mundo, os outros e a si, de um modo mais profundo, cuidadoso, amoroso. Se por um lado, esses desdobramentos levam tempo, a pausa também traz benefícios de curto prazo. Encontrar um ritmo de vida saudável no mundo de hoje é crucial.
Como esperar de líderes corporativos interessados em produtividade, lucro e resultados, que tenham cuidado com o planeta, com os colaboradores etc., se ainda se esgotam e se perdem nessa busca? Se não conseguem *p a u s a r* ?
A pausa traz presença.
Presença é um fenômeno corporal. De acordo com Judith Blackstone, uma das autoras cujas obras estão se tornando cada vez mais importantes para mim, diz que quando nos tornamos conscientes a partir do espaço interno do nosso corpo, nos tornamos muito mais presentes e ao mesmo tempo permeáveis, tornando-nos capazes de receber o impacto da vida, e ao mesmo tempo, nos abrirmos totalmente para ela sem entrar em desgaste ou sobrecarga.
“Assim como podemos receber a vida através da profundidade interna do nosso corpo, também podemos irradiar presença — a qualidade de vitalidade — a partir de todo o nosso corpo.” (Blackstone, 2012, p.11)
Existe algo que surge para nós quando entramos no modo pausa. É no silêncio, na introspecção, na autorreflexão que “de repente” começamos a enxergar beleza. Almas sensíveis são atraídas por tudo que é belo, e conseguem ver beleza em tudo. A capacidade de se maravilhar com as coisas, mesmo as mais ordinárias e mais simples, é comum, principalmente porque isso leva à experiência do sagrado, do divino, pelo qual muitas pessoas altamente sensíveis (segundo Elaine Aron), pessoas empatas (segundo Judith Orloff) e espiritualmente sensíveis (segundo Judith Blackstone) naturalmente se sentem atraídas.
Notar a beleza da vida, ter a intenção clara de admirar, contemplar o céu, uma paisagem, uma flor, qualquer coisa, é também cultivar um estado de serenidade, de inserir significado na pausa. Não é por acaso que dentre práticas que ofereço e convido clientes estão coisas simples como olhar para o céu diariamente, cozinhar a sua própria refeição uma vez ao dia, fazer jardinagem, sentir os pés, caminhar descalço no jardim, na areia, na terra… Tudo isso convida a desaceleração, para que comece a ser possível a manifestação de um novo olhar, mais sensível, observador, cuidadoso. Clientes aprendem a esperar. A valorizar os processos, incluindo os seus próprios, de autotransformação. Relações se beneficiam com a qualidade da presença que começa a emergir e do campo de sustentação que essa presença é capaz de oferecer. Paciência, empatia, compaixão aparecem naturalmente. Para mim, talvez o mais bonito de todo esse processo seja o momento em que o cliente começa a ser capaz de enxergar a própria beleza, a ter paciência consigo mesmo, a ser compassivo com si mesmo.
É preciso sensibilidade para buscar o equilíbrio, para encontrar o ritmo. É justamente nesse lugar que todas as nossas capacidades e qualidades inerentes entram em flow e fazem diferença nos lugares onde transitamos, trazendo benefícios para nós, os outros, as nossas relações e os sistemas dos quais fazemos parte.
Acredito que se o mundo se abrir em direção a explorar e cultivar a dimensão sensível existente no ser humano, todos saem ganhando. Questionar a própria visão de mundo é um ato de humildade e de sabedoria. Saber quando acelerar, quando começar a colocar o pé no freio, abrir-se a um novo ritmo pode ser libertador. Isso vale, obviamente, para ambos os lados. Quem prefere a pausa, se beneficia do aprendizado em direção a um movimento mais intenso, mais rápido. Quem prefere a velocidade, se beneficia do aprendizado em direção à um ritmo mais lento. A sensibilidade é o lugar, o canal, o meio, o órgão que vai ensinar a você a perceber quando é hora de guiar com mais, ou com menos movimento.
Termino então, com o convite para uma vivência prática. A música do Lenine, que abre esse texto, já foi trilha de muitos encontros que facilito, em grupos dos mais diversos. Quando puder, coloque para tocar, e ouça como se fosse a primeira vez. Ao terminar, pegue uma caneta e complete a frase: “A vida não para e eu…” Não pense muito, apenas comece a escrever, e siga continuamente, por uns 5 minutos. Marque o tempo. Em seguida, leia seu próprio texto e encontre a beleza escondida naquilo que estava querendo sair de você. Seja intencional, crie o espaço e o tempo para essa prática.
Todos temos nossos desafios. Cuidar de mim, enquanto cuido de outros (clientes, família, relações) é meu aprendizado mais vivo e mais constante. É natural perder o ritmo. Porém, é intencional buscá-lo e reencontrá-lo a cada vez.
Este texto foi escrito especialmente para a Edição n.154 da Revista Coaching Brasil
Palavras-chave: Alta Sensibilidade, Pausa, Presença, Movimento, Coaching Integral
Referências Bibliográficas:
Aron, E. (1996). The Highly Sensitive Person: How to Thrive When the World Overwhelms You. Citadel.
Blackstone, J. (2018). Trauma and the Unbound Body: The Healing Power of Fundamental Consciousness. Sounds True, Inc.
Blackstone, J. (2012). Belonging Here: A Guide for the Spiritually Sensitive Person. Sounds True, Inc.
Blackstone, J. (2011). The Intimate Life: Awakening to the Spiritual Essence in Yourself and Others. Sounds True, Inc.
Blackstone, J. (2007). The Empathic Ground: Intersubjectivity and Nonduality in the Psychotherapeutic Process. State University of New York Press.
Orloff, J. (2018). The Empath’s Survival Guide: Life Strategies for Sensitive People Sounds True, Inc.
Orloff, J. (2005). Positive Energy: 10 Extraordinary prescriptions for transforming Fatigue, Stress and Fear into Vibrance, Strength and Love. Three Rivers Press.
Lenine. (1999). Paciência. Disponível em: https://open.spotify.com/intl-pt/track/6gBlkT2u5P7UyZUYH8WnKz?si=8972d5df78734336
