Práticas Somáticas no Coaching Integral: corporificando o desenvolvimento

Marcia Poppe, em Dezembro de 2025

O objetivo deste artigo é, com base em experiência prática e formação profissional, trazer os fundamentos do Coaching Integral e demonstrar como as Práticas de Vida Integral quando cuidadosamente desenhadas e intencionalmente realizadas, potencialmente constituem o caminho no qual o amadurecimento psicológico-espiritual acontece e traz com ele transformações em múltiplas áreas da vida. Atenção especial é dada às práticas somáticas, fundamentais para a corporificação do crescer. Abordo também a importância de honrar o fluxo contínuo do autodesenvolvimento como requisito ético da minha prática profissional e atuação no mundo, trazendo o exemplo simples e potente de uma prática com a qual me comprometo.

O desenvolvimento humano adulto é, na minha perspectiva, o campo mais fascinante da contemporaneidade. Enquanto diversas abordagens buscam apoiar o crescimento de indivíduos e organizações, o Coaching Integral se distingue pela compreensão profunda da multidimensionalidade do ser humano e pelo papel central que atribui às práticas conscientes e regulares como catalizadoras de transformação duradoura.

Coaching Integral é uma abordagem sensível com metodologia que se faz viva através do equilíbrio entre a permeabilidade dos modelos que o fundamentam e o modo de ser no mundo, do coach e do cliente. É nesse campo fértil de intersubjetividade que alguns pressupostos sobre a natureza humana se desdobram em transformação. 

O primeiro desses pressupostos se baseia na premissa de que a realidade se abre em quatro dimensões inter-relacionadas e simultâneas: a experiência interior individual (consciência subjetiva, pensamentos, emoções, valores); a exterior individual (corpo, biologia, comportamentos observáveis); a interior coletiva (cultura, relações, significados compartilhados); e a exterior coletiva (ambientes físicos, naturais e construídos, estruturas organizacionais e sistemas que sustentam e/ou limitam a vida) (Wilber, 1996; Flaherty & Handelsman).

O segundo é o reconhecimento de que o ser humano possui diferentes linhas de desenvolvimento que são relativamente independentes e mutuamente se influenciam: cognitiva, emocional, somática, relacional, espiritual, dentre outras (Wilber, 1999; Gardner, 1983).

O terceiro se refere à estrutura individual de interpretação da realidade, que influencia a maneira como atribuímos significado à nossa experiência. A literatura de desenvolvimento humano adulto (Kegan, 1982, 1994; Cook-Greuter, 1999) demonstra que essa estrutura evolui qualitativamente ao longo do tempo, tornando-se progressivamente mais abrangente, complexa e capaz de sustentar múltiplas perspectivas. Esses estágios de evolução foram mapeados e servem de orientação para a jornada de crescimento.

O quarto abrange a noção de tipologia. Tipos caracterizam padrões conhecidos através dos quais nos reconhecemos e somos reconhecidos no mundo. São estruturas simultaneamente estáveis e maleáveis, às quais o adulto pode permanecer condicionado inconscientemente por muito tempo. Tipos de personalidade podem evoluir rumo a expressões mais livres e saudáveis da essência individual.

Por fim, o acesso regular a estados diferenciados de consciência é um catalisador potente de crescimento, quando entrelaçado aos outros pressupostos.

Unindo esses pressupostos com os frameworks que sustentam e mapeiam o desenvolvimento integral, fica mais claro o campo de atuação e influência do Coaching Integral: o ser humano e seu potencial de amadurecimento.

Para além de auxiliar no alcance de metas ou resultados (“o quê?” e “como?”), o processo investiga “Quem?” é esse Ser no mundo. Por isso se mostra tão transformador, tendo como desdobramentos excelência a longo prazo (habilidade de definir intenção e comprometimento), autocorreção (habilidade de enxergar incoerências entre ser e fazer, entre falar e agir), autogeração de recursos internos e externos para enfrentar desafios que se apresentem, e desenvolvimento contínuo. Indivíduos aprendem a crescer de modo autônomo, até onde desejarem.

O Coaching Integral trabalha primordialmente com desenvolvimento vertical: a transformação da própria estrutura através da qual interpretamos o mundo e nossa capacidade de tomar múltiplas perspectivas. Porém, também fortalece capacidades fundamentais e horizontais como regulação emocional, habilidades vocacionais e de comunicação, que frequentemente precisam estar consolidadas antes que a psique alcance formas mais complexas de atribuição de sentido. Endereça também as forças culturais e sistêmicas que possibilitam ou constrangem a transformação. 

A pesquisa demonstra que o desenvolvimento vertical produz resultados significativamente mais duradouros do que o horizontal (Kegan & Lahey, 2016; Rooke & Torbert, 2005). Uma vez que a estrutura se modifica, todos os conteúdos são reorganizados e as soluções para futuros “quês” e “comos” emergem mais naturalmente do indivíduo. Como aponta Flaherty (2010), trabalhar apenas horizontalmente pode resolver problemas específicos, mas deixa o cliente dependente do coach. Este trabalho de transformação estrutural integra mente, coração, corpo e espírito, exigindo mais do que insights cognitivos: requer transformações corporificadas, sentidas, vividas. Aqui reside o papel central das práticas integrais.

Pratica de Vida Integral

Como arquitetura do amadurecimento, a Prática de Vida Integral (Integral Life Practice, ou ILP) foi desenvolvida por Ken Wilber como framework que organiza a multiplicidade de práticas atualmente disponíveis, vindas de tradições espirituais, ciências contemplativas, psicologia, terapias somáticas etc., dentro de uma estrutura coerente e flexível. 

Wilber define prática como “uma atividade realizada consciente e regularmente com a intenção de desenvolver determinada capacidade ou qualidade”. Práticas podem ser desenhadas de modo personalizado e escalável, adaptando-se às circunstâncias de vida e às necessidades específicas de cada indivíduo. (Wilber et al., 2008)

O que torna uma prática “integral”? Sua capacidade de engajar simultaneamente múltiplas dimensões do ser (corpo, mente, coração, espírito) e de considerar as quatro dimensões da experiência humana anteriormente descritas. Uma prática bem desenhada produz “sinergia de treinamento cruzado” (Leonard, 2006): o desenvolvimento em uma área impacta beneficamente outras. Meditação regular, por exemplo, cultiva presença mental, regula o sistema nervoso, melhora a qualidade relacional e pode despertar insights sobre padrões sistêmicos.

No contexto do Coaching Integral, as práticas são customizadas através de um processo rigoroso e altamente sensível de design que considera todos os pressupostos e aquilo que a pessoa traz como questão para dentro do processo. Cada pessoa é única e mesmo que dois indivíduos tragam a mesma questão, seus programas serão invariavelmente diferentes. O que cada um vivência é um encontro fenomenológico, um campo de presença e escuta profunda que convida cada um, no seu tempo, a habitar novos territórios de si, até então não experienciados.

Pressupostos e frameworks permanecem no background da relação de coaching. Minha decisão ética de revelá-los ou mantê-los implícitos considera a capacidade de desenvolvimento do cliente, seu estilo de  aprendizagem e consentimento. Transformo os frameworks integrais em mapas vivos, ao oferecer estrutura teórica quando isso fomenta autonomia, e traduzo o necessário em experiências práticas simples e eficientes. 

Dentro da perspectiva integral, o desenvolvimento humano é compreendido através de múltiplos vetores que Wilber sintetiza como crescer em complexidade cognitiva (Grow up), despertar para dimensões mais profundas de consciência e presença (Wake up), limpar e curar traumas e sombras (Clean up), mostrar-se autenticamente (Show up) e abrir-se relacionalmente em amor e conexão (Open up). Estes cinco movimentos ocorrem simultaneamente e se influenciam mutuamente, constituindo a totalidade do amadurecimento.

Práticas integrais regulares e conscientes essencialmente nutrem estes cinco movimentos, e tornam o desenvolvimento proativo, sustentado e saudável. Embora o ILP seja apresentado como a “maneira mais rápida de se desenvolver”, é importante ressaltar que transformações profundas requerem tempo, coragem, persistência e paciência, podendo levar de 3 a 5 anos (Garvey Berger, 2012; Kegan, 1982) até que o novo estágio se estabilize e se torne consistente. Um processo de Coaching Integral atua exatamente nesse lugar, como catalisador e facilitador desse movimento.  

A premissa do Coaching Integral é que ao desenvolver competência nas diversas linhas de inteligência, o cliente transita para uma nova estrutura de interpretação da realidade, mais ampla e mais profunda que a anterior. As práticas precisam ser ajustadas àquilo que o cliente está preparado para receber. Nem tão avançadas que desencorajem, nem tão fáceis que desestimulem. 

Linha somática como fundamento da transformação corporificada

Para que o coaching aconteça, é preciso que o cliente se torne “presente”. Presença é um fenômeno corporal (Flaherty, 2010). Por isso a linha somática de desenvolvimento é essencial, o fundamento da transformação corporificada. Tornar-se presente é habitar o próprio corpo com consciência, inteligência e sensibilidade. 

Em um mundo em que o ser humano vive de 6 a 10 horas por dia trabalhando, sentado, em frente a uma tela, enfatizando habilidades cognitivas e estratégicas, sem nenhum tempo de pausa para respirar ou comer, é cada vez mais difícil encontrar alguém que habite seu corpo plenamente. Pessoas moram na cabeça, esquecem que têm um corpo, que são um corpo vivo. Existem em estados de ansiedade crônica, fadiga, cansaço mental e emocional, causando cada vez mais danos ao sistema nervoso, que vive em estado de alerta, sem perceber que elas próprias contribuem para a continuidade dessa situação.  

O corpo é o container de todos os processos vitais e energéticos que compõe o ser humano. É um mestre de sabedoria inata e profunda, porém, para que possamos aprender seus ensinamentos, precisamos ressignificar nossa relação com ele. Cuidar da linha somática garante que novas capacidades sejam incorporadas em um sistema nervoso remodelado. 

Diretamente relacionado a isto, e no centro da metodologia, está a qualidade do campo da relação entre coach e cliente. Sustentar um campo saudável passa pelo meu próprio desenvolvimento: só posso oferecer isso dedicando tempo e espaço às minhas práticas continuamente. Meu corpo, minha estrutura, a integralidade do meu Ser, tudo é instrumento. A literatura demonstra que proximidade com estruturas mais complexas é um poderoso catalisador de crescimento vertical. 

Ao cultivar estados estáveis de serenidade, compaixão, presença e abertura, ancoro o campo relacional e crio o contorno para a exploração de material desafiador pelo cliente. Entro na relação com “respeito profundo e curiosidade infinita, sempre disposta a ter minha perspectiva modificada por aquilo que encontro no outro” (Flaherty). 

Tempo na natureza, meditação, movimento consciente, participação em comunidades de prática, escrita reflexiva, supervisão e coaching integral, práticas somáticas, contemplativas e terapêuticas, tudo isso faz parte da minha Prática de Vida Integral. 

Acredito que a prática se torna integral quando se torna parte integrante de quem você é. Conexão com a natureza é para mim uma prática completa. Experiência existencial e fenomenológica, me permite viver a partir de sentidos mais abertos e sensíveis a tudo que é vivo. Além de ser o lugar onde exercito meu corpo, a Natureza é onde busco o sagrado, nutro o espírito, contemplo e respiro a beleza do mundo. Escolhi conscientemente morar num lugar onde o desfrute do mar e das montanhas é movimento frequente e inegociável. Através dela, crio distância em tempo e espaço, e proporciono o alargamento necessário para que minha estrutura se mantenha estabilizada e eu consiga me conectar significativa e verdadeiramente aos outros, ao mundo, ao cosmos, a mim mesma. Prática fundamental para sustentar uma presença amorosa e ancorar o campo relacional. 

“Em essência, a prática de vida integral não se limita à realização de práticas específicas. É um compromisso sincero e inerente de trazer consciência, cuidado e presença a cada momento da vida e, assim, expandir a própria consciência, cuidado e presença” (Wilber et al., 2008, p. 44). 

A Prática de Vida Integral oferece o caminho palpável por meio do qual o amadurecimento se torna possível, nutrindo presença, estabilizando o sistema e abrindo espaço para perspectivas mais amplas e compassivas. O Coaching Integral propõe uma visão de desenvolvimento que honra a complexidade da condição humana e reconhece que transformações precisam ser corporificadas, sentidas e vividas ao longo do tempo. Lugar de encontro vivo, encarnado e profundamente humano que, ao possibilitar múltiplos espelhamentos, fertiliza a transformação em ambas as direções, tornando-se também, uma prática em si

Este texto foi escrito especialmente para a Edição n.151 da Revista Coaching Brasil

Palavras-chave: coaching integral, prática de vida integral, prática somática, corporificação, desenvolvimento humano adulto

Referências Bibliográficas:

Cook-Greuter, S. (1999). Postautonomous Ego Development: A Study of Its Nature and Measurement. Doctoral dissertation, Harvard University.

Flaherty, J. (2010). Coaching: Evoking Excellence in Others (3rd ed.). Butterworth-Heinemann.

Flaherty, J. & Handelsman, A. Integrating Rigor, Compassion, and Creative Design: The Promise of Integral Coaching. New Ventures West.

Garvey Berger, J. (2012). Changing on the Job: Developing Leaders for a Complex World. Stanford University Press.

Kegan, R. (1982). The Evolving Self: Problem and Process in Human Development. Harvard University Press.

Kegan, R. (1994). In Over Our Heads: The Mental Demands of Modern Life. Harvard University Press.

Leonard, A. (2006). An Introduction to Integral Life Practice. AQAL Journal of Integral Theory and Practice, 1(2).

Wilber, K. (1996). A Brief History of Everything. Shambhala.

Wilber, K. (1999). Integral Psychology: Consciousness, Spirit, Psychology, Therapy. Shambhala.

Wilber, K., Patten, T., Leonard, A., & Morelli, M. (2008). Integral Life Practice: A 21st-Century Blueprint for Physical Health, Emotional Balance, Mental Clarity, and Spiritual Awakening. Integral Books.